Nomes importantes da cultura brasileira celebraram o legado do multiartista Jorge Mautner, que completou 85 anos em 2026 e foi homenageado nesta semana com a Medalha Rui Barbosa, concedida a personalidades e instituições que se destacam no fortalecimento da cultura brasileira. Parceiro histórico em composições, Caetano Veloso ressaltou o impacto de Mautner em sua formação e na construção de uma ideia de Brasil:

“Uma coisa que eu queria ressaltar é a confiança no Brasil. Algo que hoje parece impensável. No entanto, o Mautner, em nenhum momento, abandonou essa aposta no Brasil como algo que pode trazer uma luz diferente ao mundo”
Notícias relacionadas:
- Celebração de 85 anos de Jorge Mautner terá transmissão online.
- Exposição no Theatro Municipal celebra Ano Cultural China-Brasil.
- Rádio MEC: De quem é a música? destaca o compositor Luiz Antonio.
“De todos os amigos em quem encontrei diálogo sobre essa crença no dever do Brasil, o Mautner é o único que ainda me faz crer nisso”, completou Caetano Veloso.
A entrega da medalha ocorreu em uma cerimônia na última terça-feira (24), em uma noite que reuniu artistas, intelectuais e amigos na Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Vinculada ao Ministério da Cultura, a instituição é responsável pela distinção honorífica, que também se deve ao papel de Mautner “na preservação da memória e na promoção do conhecimento como fundamento de uma sociedade democrática”.
Emocionado, Mautner não discursou, mas agradeceu o reconhecimento e o carinho recebido durante a premiação.
Artista fundamental
Nascido no Rio de Janeiro, em 1941, e filho de imigrantes judeus austríacos, Jorge Mautner construiu uma trajetória singular como compositor, escritor e pensador. Autor de obras fundamentais da música brasileira, como Maracatu Atômico e Lágrimas Negras, integrou o universo do tropicalismo e desenvolveu uma filosofia própria, marcada pela ideia de “kaos” criativo e pela defesa da mistura cultural brasileira.
Preso durante a Ditadura Militar, viveu em exílio nos Estados Unidos e em Londres, onde estreitou laços com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ao longo das décadas, manteve uma produção artística que transita entre música, literatura e pensamento, sempre guiada pela valorização da diversidade e do sincretismo.
A cerimônia, marcada por música, conversas e declarações afetuosas, reuniu ainda nomes como Gilberto Gil e a atriz Fernanda Torres. Ao longo da noite, a homenagem ganhou contornos de celebração íntima e coletiva, refletindo a amplitude da influência de Mautner.
A atriz Fernanda Torres relembrou encontros com Mautner e refletiu sobre sua dimensão histórica e simbólica.
“Eles foram jovens na Guerra Fria, e nós, hoje, somos meio tudo isso junto, ao mesmo tempo, agora, piorado”.
“Mas o que eu acho que ele teve, e que essa geração teve, era uma espécie de lado visionário do que o Brasil podia dar ao mundo como contribuição sincrética, esse lado de como o Brasil tem antena.”
Fernanda Torres destacou ainda a delicadeza do artista diante das adversidades: “Ele, às vezes, poderia estar numa situação terrível, mas a reação dele é de uma pessoa que está apenas vendo o que está acontecendo. Isso me impressiona muito”.
A jovem Julia Mautner, neta do artista, resumiu o sentimento familiar: “Ele é a pessoa mais inteligente do mundo e consegue passar isso de todos os jeitos. Eu acho ele perfeito”.
Ao refletir sobre liberdade, conceito central na obra do avô, ela afirmou: “Liberdade, eu acho, é mais uma coisa interna. É você se permitir se olhar de fora, sem julgamento e, com isso, transformar e fazer coisas novas.
Quebra de protocolo
A entrega da medalha rompeu o protocolo tradicional da instituição, que prevê as condecorações em novembro. O presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, Alexandre Santini, destacou o caráter excepcional do momento:
“Quebramos o protocolo com a entrega hoje, pois sempre fazemos as homenagens em 5 de novembro, que é o Dia da Cultura. Desde 1949, quando essa medalha começou a ser entregue todos os anos, é a primeira vez que a gente entrega fora do dia 5 de novembro. Foi porque foi para você, tá bom?”, afirmou, antes da leitura do certificado.
A honraria, segundo a instituição, reafirma valores como ética, liberdade de pensamento e compromisso com a cultura. Ao final da leitura, o coro do público sintetizou o espírito da noite: “Viva Jorge Mautner. Viva!”
A homenagem foi organizada a partir da curadoria da artista Maria Borba e do pesquisador João Paulo Reys, que construíram um roteiro capaz de refletir a multiplicidade do homenageado.
“No ano passado, eu e o João Paulo Reys lançamos um livro de poemas do Jorge. E, por ocasião do lançamento, começamos a fazer pequenas apresentações musicais. Isso foi funcionando e ele foi querendo fazer cada vez mais. Aí, surgiu essa ideia, um pouco através da Casa de Rui Barbosa, do Alexandre Santini, de fazer uma homenagem para o Jorge aqui”, contou Maria Borba.
O roteiro reuniu diferentes vozes e linguagens, da música ao cinema, da literatura ao teatro, e culminou com a entrada de Mautner no palco, após acompanhar parte da cerimônia na plateia. “Foi pensado que a gente acabaria com ele se apresentando musicalmente, porque a gente sabe que esse é o ápice da noite”, explicou a curadora.
O ponto alto da noite veio quando Mautner, até então na plateia, subiu ao palco para se juntar aos amigos. Entre abraços, músicas e improvisos, a celebração culminou em um pocket show ao lado da cantora Cecília Beraba, encerrando a homenagem com a mesma energia que marcou toda a sua trajetória.


