Em 1973, quando trabalhava como cinegrafista para uma TV alemã, Jorge Bodansky sobrevoou os arredores da cidade de Aripuanã (MT) para registrar a criação da Cidade Laboratório de Humboldt – projeto científico e tecnológico idealizado pela ditadura militar brasileira para ocupar a Amazônia e que foi desativado poucos anos depois, em 1978.

Durante este voo e com uma câmera Super-8 em mãos, o cineasta filmou, por acaso, um grupo de indígenas Paiter Suruí isolados, que nunca havia sido contatado, tentando flechar o avião. Essas imagens acabaram não sendo enviadas para a TV alemã e ficaram esquecidas em seu arquivo até que esse material acabou sendo digitalizado recentemente e revisto pelo cineasta.
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“O objetivo desse sobrevoo não eram os indígenas, por acaso eles apareceram e subiram no telhado e tentaram flechar o avião. Essa imagem ficou esquecida e agora ela apareceu e eu pensei: ‘Puxa vida, isso me intrigou muito. Quem são esses indígenas?’.”
E foi com esse questionamento que ele começou a revisitar toda a sua carreira para produzir o seu mais novo documentário Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky.
O filme foi exibido na mostra competitiva ambiental do Bonito Cinesur, festival de cinema que ocorre até o próximo sábado (1°/8) na cidade de Bonito (MT).
O cineasta decidiu revisitar o local das filmagens para tentar descobrir quem eram aqueles indígenas retratados casualmente e também documentar como estava aquela região depois de tanto tempo.
“No decorrer desse processo de pesquisar imagens eu acabei contando a minha história também. Então esse é um filme autobiográfico e que conta uma história que eu vivi”, disse o cineasta.
Mudanças
Passados 50 anos daquele sobrevoo, Bodansky diz que sua forma de fazer cinema pouco mudou. “O título do filme é Um Olhar Inquieto porque acho que meu olhar continua inquieto. Eu sempre olho e procuro as coisas. Minha forma de me posicionar diante da imagem do cinema continua a mesma. Eu continuo fazendo esse tipo de cinema de aventura, de observação e preocupado com a questão social.”
Embora sua forma de fazer cinema tenha permanecido praticamente a mesma, o mesmo não aconteceu com os Pater Surui ou com aquela localidade. Muitos daqueles indígenas morreram por doenças ou violências quando começaram a ser contatados. O projeto Humboldt, por sua vez, estava em ruínas. E aquela paisagem que aparece nas imagens do sobrevoo jamais foi a mesma.
“A questão que aconteceu com esses indígenas, não quero dar o spoiler, mas é a história que todo mundo sabe. E a outra é que quando eu estive lá, era floresta até o horizonte. Hoje é soja até o horizonte.”
Ao voltar a filmar aquela região, a câmera de Bodansky mostra que a exploração da Amazônia encampada pela ditadura militar ainda continua um problema muito atual. “Essa é uma forma de ocupação que começou na ditadura militar e que não mudou até agora”, ressaltou o cineasta.
“Independentemente do governo que está de plantão, a forma de ocupar a Amazônia e de ver a Amazônia é a mesma. Você parte do princípio de que não existe nada lá e temos que ocupá-la e fazê-la produzir. Isso não leva em consideração que lá tem gente e que sabe o que quer – e que luta por isso.”
Para ele, esse problema só será resolvido por meio da organização e mobilização da sociedade civil. “Hoje você vai a qualquer comunidade quilombola, ribeirinha ou indígena e eles estão organizados, têm representatividade, sabem o que querem.”
*A repórter viajou a convite do Bonito CineSur


